sábado, 7 de janeiro de 2012

Nick´s Film - Lightning Over Water


Raymond Nicholas Kienzle, ou simplesmente Nicholas Ray (1911-1979), foi um dos grandes outsiders do cinema norte-americano . Instigante e ousado, desafiou modelos pré-estabelecidos em Hollywood e realizou obras viscerais marcadas por personagens desajustados que tentam sobreviver em mundo plástico e formulaico marcado por antiquadas convenções, nos quais parecem não se encaixar de forma alguma. No Silêncio da Noite (1950), Cinzas Que Queimam (1951), Johnny Guitar (1954) e Juventude Transviada (1955) são alguns de seus filmes mais marcantes. Também é visto como um dos precursores da chamada Nova Hollywood que despontou no final dos anos 60 e revelou diretores como Francis Ford Coppola, Martin Scorcese e Robert Altman.

Conhecido por seu temperamento irrascível , não raro vivia às turras com os grandes estúdios , que invariavelmente não viam com bons olhos aquele insolente cineasta autor de filmes indigestos e difíceis, totalmente o oposto das películas palatáveis que faziam a alegria dos produtores e grande público. Após realizar 55 Dias Em Pequim (1962), Nick abandonou a direção e o star system hollywoodiano para se dedicar à vida acadêmica, lecionando Direção e Cinema até meados dos anos 70, quando descobriu possuir câncer de pulmão.

Como em muitos casos, Nick era mais querido na Europa do que em seu país natal. Jean-Luc Goddard afirmava com todas as letras que Ray era a expressão máxima do cinema. Um jovem cineasta alemão que no final dos anos 60 dava seus primeiros passos na Sétima Arte também tinha Nick em alta conta e deleitava-se com suas obras em projeções de festivais e cineclubes. Seu nome era Wim Wenders. A admiração de Wenders por Ray era tanta que em 1977 escalou o veterano cineasta para o elenco de O Amigo Americano. A colaboração artística acabou se tornando uma sólida amizade.

Em 1979 Nick estava debilitado e consumido pela doença, mas mesmo assim tencionava dirigir um derradeiro filme. Wenders voa para New York, onde o velho amigo residia, para realizar uma espécie de documentário e tributo. Misturando filmagens em 35 mm e vídeo, o diretor alemão acompanhou os últimos dias de vida de Ray. O resultado seria Nick´s Film – Lightning Over Water.

Está muito longe de ser um filme agradável. As câmeras de Wenders captam, quadro a quadro, o estado de saúde cada vez mais frágil de Nick. Apesar de tudo, o veterano possui uma vontade de viver e um desejo por realizar sua última obra que suplantam sua doença – em última análise, sua própria paixão pelo verdadeiro Cinema.


Simultaneamente a Nick´s Film, Wenders estava envolvido com a tumultuada gestação de Hammet, um filme noir produzido por Francis Ford Coppola. Em determinado momento, o alemão confidencia as dificuldades que está enfrentando com seu novo trabalho. Nick pergunta a Wenders qual o orçamento previsto. Wenders responde: “10 milhões de dólares”. A resposta de Ray é lapidar: “Com esse orçamento eu faria dez filmes”. Isso dá a exata medida da independência que o velho diretor sempre defendeu.

O filme que Nick tencionava levar a cabo tinha como mote uma história sobre um protagonista que buscava se reencontrar antes da chegada de sua morte. Por outro lado, a obra de Wenders coloca um personagem (Nick) em confronto direto com a morte iminente. Em uma das passagens do filme, Ray vai até uma universidade falar sobre um de seus filmes, The Lusty Man (Paixão de Bravo, 1952). Segundo o cineasta, mais do que um western, a obra é a busca de um homem pela recuperação de sua auto-estima antes de morrer. Traçando-se um paralelo com o filme de Wenders, Nick parece empreender uma busca inglória com a auto estima perdida.


A narrativa é permeada por uma forte sensação de finitude. Tanto Wenders como Nick têm consciência de que o fim para o segundo está cada vez mais próximo. Cada fala e pensamento de Ray parece se firmar como uma espécie de testamento. No derradeiro plano de Nick´s Film – e do próprio Ray no Cinema -, a câmera estática registra os momentos finais (o cineasta viria a falecer dias depois) de um diretor que deu uma nova dimensão ao cinema norte-americano. A figura recorrente da morte que paira sobre o filme funciona perfeitamente como uma metáfora. Com a partida de Nicholas Ray, o próprio Cinema também, de certa maneira, morreu.

"Animals": O legado punk do Pink Floyd


O ano de 1977 representava, por assim dizer, o epicentro do terremoto punk. Johnny Rotten e seus asseclas berrando No Future a plenos pulmões, os Ramones conquistando corações e mentes em três acordes; o Clash escancarando o caos social na Inglaterra em White Riot... UK Subs, Stranglers, The Damned... enfim, os punk rockers tratavam de virar o cenário musical de pernas para o ar e romper com antigos valores.

Nesse contexto os principais alvos dessa nova geração eram os medalhões do rock and roll, como Led Zeppelin, Uriah Heep, Emerson Lake & Palmer, Yes, Deep Purple, Eagles e tantos outros. Ridicularizados como “bandas ultrapassadas que faziam músicas complacentes para hippies velhos”, esses grupos pareciam representar tudo o que havia de errado com a música até então: glamour, distanciamento entre artista e público, virtuosismo exacerbado e total falta de conexão com o mundo real.

Johnny Rotten teria rabiscado em uma camiseta a frase nada amistosa “I Hate Pink Floyd” (eu odeio Pink Floyd). Este grupo em especial parecia, aos olhos dos punks, a síntese de tudo que aquilo que eles pretendiam destruir. Porém, o Floyd parecia completamente alheio a todos esses acontecimentos – é oportuno citar aqui as palavras do crítico Bruno MacDonald, que assinalou: “O punk não conseguiu acabar com o Pink Floyd. Os dias de bandas como o Led Zeppelin, Yes e ELP estavam contados. O Genesis encolheu para sobreviver. Mas o Floyd fazia exatamente o que queria.” (1)

Lançado à condição de mega banda após o sucesso mundial de público e crítica do álbum The Dark Side Of The Moon (1973), o Floyd parecia ter se tornado o seu próprio e maior concorrente. O sucesso abrupto também marcou o pico de cratividade da banda e muitos imaginavam como seria o disco sucessor, que ganharia vida em 1975 sob o título Wish You Were Here. Em termos musicais não devia absolutamente nada ao seu predecessor, mas acabou de certa forma eclipsado (com perdão do trocadilho) pela ”herança” de The Dark Side. Também acabou por assinalar o fim de um grupo no sentido estrito da palavra, formado por quatro membros participando ativamente do processo criativo. As tensões internas aumentavam e, com elas, o domínio do vocalista e baixista Roger Waters que, pouco a pouco, passava a enxergar os companheiros como meros acompanhantes de luxo.

Mesmo com esses contratempos, a banda, de fato, fazia exatamente o que queria. Em 1977, o Floyd não apenas não se intimidou com a revolução punk como lançou, por assim dizer, o seu disco mais carregado de revolta e amargura, Animals. Disco conceitual (as letras giram em torno de um determinado tema) como The Dark Side of The Moon e Wish You Were Here, é claramente inspirado no livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, traçando um paralelo com o contexto social e político da Inglaterra da época (não faltando cutucadas a Margaret Thatcher).

Abrindo e fechando com dois pequenos interlúdios acústicos, Pigs On The Wing (partes I e II), o disco é recheado por três longas faixas, com mais de dez minutos de duração cada uma, Dogs, Pigs (Three Diferent Ones) e Sheep. Os próprios títulos deixam clara a influência de Orwell. Os cães representam a figura do capitalista selvagem que não enxerga nada além de lucros; os porcos são os políticos demagogos, manipuladores e corruptos que ao mesmo tempo clamam por moralidade; e as ovelhas representam a população passiva e desprovida de pensamento crítico que obedece regras cegamente. Esses paralelos são costurados de forma extremamente concisa por Waters, que sempre mostrou-se um letrista extremamente hábil. Ao contrário do caráter reflexivo de trabalhos anteriores, aqui suas letras estão mais irônicas, afiadas e corrosivas do que nunca.

As músicas em si não eram exatamente novas e já vinham sendo executadas ao vivo pela banda desde 1974, com títulos diferentes – Sheep era intitulada Raving And Drooling e Dogs chamava-se You Gotta Be Crazy. Assim pode-se dizer que estavam mais do que ensaiadas quando foram registradas oficialmente. Gravado no próprio estúdio da banda, o Britannia Row em Londres, Animals mostra uma sensível mudança no direcionamento musical da banda – o som é mais cru e direto; o guitarrista David Gilmour aposta mais nos riffs do que nos solos (embora eles lá estejam, e executados de forma espetacular) e os teclados de Richard Wright, que estavam em total evidência nos dois álbuns anteriores, aqui se mostram bem mais contidos. Por mais surpreendente que pareça, o punk rock indiretamente infiltrou-se no som do grupo.

Talvez o momento máximo do disco esteja em Sheep, com seu sabor hard , guitarras cortantes de Gilmour e Waters cuspindo versos irônicos onde tripudia sobre a passividade das “ovelhas”, inclusive realizando uma citação irônica aos Salmos de Davi (“O Senhor é meu pastor, nada me faltará”)

Situado entre os extremos de The Dark Side Of The Moon e The Wall, que seria lançado dois anos depois, Animals muitas vezes é visto erroneamente como um momento obscuro e menor da trajetória do Pink Floyd. Mas não se deixem enganar, amigos(as): este memorável disco representa um importante legado de uma das bandas mais importantes que o mundo já conheceu, sem qualquer tipo de exagero. Com uma certa cara de pau, ouso dizer que é o disco mais punk que o próprio punk não fez!





(1) “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer”, Pg. 441, 1ª. Edição, 2008, Editora Sextante Ltda
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

UTOPIA BANISHED - Napalm Death em Estado Bruto !!

Após lançar dois álbuns seminais para o gênero grindcore, Scum (1987) e From Enslavement To Obliteration (1988), o Napalm Death viu-se sob inéditas influências musicais. A entrada de novos integrantes (o vocalista Barney Greenway e os guitarristas Jesse Pintado e Mitch Harris), aliada ao fato do grupo sair em turnê com bandas death metal (Morbid Angel, Carcass, Bolt Thrower) fez com que o som rápido, curto e grosso que os caracterizava até então fosse dando espaço a partes mais cadenciadas e variações de andamento. O Napalm Death aderia ao death metal.

O grupo foi para a Flórida trabalhar com o produtor Scott Burns no Morrisound Studio, verdadeiro celeiro de grupos death e thrash metal como Sepultura, Cannibal Corpse, Death, Deicide, Massacre e tantos outros. Das sessões de gravações surgiu o álbum Harmony Corruption (1990). Os fãs ficaram divididos e muitos não viram com bons olhos a forte influência death e a diminuição da velocidade. Esse direcionamento desagradou, inclusive, o baterista Mick Harris que acabou saindo da banda. Muitos achavam que o Napalm não era mais o mesmo. Na verdade, os próprios membros remanescentes não estavam, por assim dizer, plenamente satisfeitos com o resultado do disco.

O baterista norte-americano Danny Herrera é convidado para integrar a banda. Dispostos a resgatar a veia grindcore que havia ficado um pouco de lado, o grupo escolhe para a empreitada o produtor Colin Richardson, que já trabalhou então com bandas como The Exploited, Brutal Truth, Machine Head, Fear Factory e Extreme Noise Terror. A escolha não poderia ter sido mais acertada. Disposta a mostrar que ainda era um dos principais nomes da música extrema, a banda tratou de mostrar serviço – e que serviço!

O resultado vem em 1992 na forma do álbum Utopia Banished. Em 15 verdadeiras tijoladas, a banda despeja fúria, peso e velocidade em doses nada homeopáticas. Um verdadeiro trabalho de volta às raízes. The World Keeps Turning, single do disco, é executada até hoje nos shows e se firma como um dos grandes momentos do conjunto, além de ser um autêntico cartão de visitas do álbum. Sonoridades industriais dão um tempero especial em Discordance e Contemptuous (esta última contém samples do filme Full Metal Jacket, de Stanley Kubrick), enquanto que a veia punk/hardcore dá o tom em Aryanisms, Judicial Slime e Distorting The Medium. Danny Herrera e seus alucinados blast beats mostrou que as baquetas (e pedais!) estavam em excelentes cuidados. Barney e seus vocais guturais inconfundíveis emprestam toda a raiva necessária ao conceito da obra, e os guitarristas Jesse Pintado e Mitch Harris formam uma muralha sônica implacável. Ouça o mais alto possível !!

Outros álbuns igualmente agressivos viriam depois, alternados entre novos experimentos sonoros, mas Utopia Banished representa, de longe, um dos momentos máximos do Napalm Death e, sem sombra de dúvidas, é um referencial indiscutível dentro do gênero grindcore.

A título de curiosidade e, para atiçar os fãs insaciáveis, vale registrar que na época de seu lançamento, Utopia teve uma versão limitada que vinha acompanhada de um mini-CD (ou um sete polegadas, no caso do vinil) com quatro músicas extras: One And The Same, Sick And Tired, Malignant Trait e Killing With Kindness

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Um Michael Mann que poucos conhecem

O cineasta Michael Mann é frequentemente lembrado pelo grande público por conta dos filmes que dirigiu a partir de meados da década de 90, como Fogo Contra Fogo, O Informante, Colateral e, mais recentemente, Inimigos Públicos. Sua filmografia anterior , todavia, parece ser uma ilustre desconhecida para muitos. Mas é desse período que faz parte uma de suas realizações mais consistentes, o policial Profissão Ladrão (Thief, 1981). Algumas diretrizes básicas do estilo de Mann começariam a se estabelecer neste filme, como o forte apuro visual e a predileção por personagens obsessivos por seus trabalhos e movidos por um forte e particular código de ética.


Frank (James Caan) é um ex-presidiário e especialista em roubos de jóias e dinheiro , meticulosamente planejados e executados com a finesse de um profissional e sempre na companhia de seu fiel parceiro Barry (um então iniciante James Belushi). Seu estilo de trabalho acaba por chamar a atenção de um poderoso gangster, Leo (Robert Prosky). Disposto a abandonar sua vida criminosa e formar uma família, Frank associa-se a Leo para um derradeiro e rendoso golpe, porém nem tudo correrá como o planejado e o protagonista logo percebe estar envolvido em uma estrutura de poder que coloca em risco sua forma de conduta e até mesmo sua vida.



Um dos grandes méritos do filme é a proximidade que Michael Mann desenvolve entre o protagonista da trama e o espectador. Graças ao roteiro enxuto e bem amarrado, conhecemos um pouco mais do interior, da persona de Frank. É claro, um contraventor, mas que busca sua redenção pessoal. Esteve por muitos anos na cadeia, quer recuperar o tempo perdido e, mesmo sendo bem sucedido em sua, digamos, área de atuação, é tomado por uma espécie de vácuo. Falta-lhe algo, um pedaço, um norte. Este aparece na forma de Jesse (Tuesday Weld), balconista de uma cafeteria que lhe desperta a atenção e o desejo de tornar-se marido e pai . Esposa, uma prole, uma casa confortável, tranquilidade material, enfim o mote da realização individual, algo tão caro aos anos 80, em contraponto ao espírito coletivo da década anterior. Aliás, tais motivações e desejos ficam evidentes na sequência em que Frank e Jesse conversam em um restaurante. Quem também se estabelece como um norte sobre nosso (anti) herói é Okla (o cantor country Willie Nelson), ex companheiro de prisão de Frank acometido por uma doença fatal e que pede ao velho amigo que o tire de lá porque não deseja morrer atrás das grades. Talvez aqui esteja a falha do filme, que não desenvolve a contento este personagem secundário tão interessante.




Essa abordagem existencial alinha Frank aos personagens de Robert de Niro em Fogo Contra Fogo e Tom Cruise em Colateral. Todos são os melhores no que fazem, mas ao mesmo tempo cultivam um vazio interior, resultado de suas escolhas. Nas mãos de realizadores menos hábeis, seria um passo fácil para o dramalhão, mas com Michael Mann esses perfis tornam-se partes integrantes e fascinantes das tramas.



O foco central da narrativa não escapa ao controle do diretor. Com um brilhante trabalho de fotografia (elevado a níveis muito mais amplos em Colateral, de 2004), interpretações eficientes e uma trilha sonora eletrônica inspiradíssima do grupo alemão Tangerine Dream, Mann prende a audiência até o violento desfecho que sinaliza, em maior ou menor grau, que desde o início as escolhas de Frank o colocariam em um caminho sem volta.



No cômputo geral, Profissão Ladrão deve ser visto, não só por aqueles que apreciam um filme policial de qualidade, mas para quem deseje entender um pouco mais a trajetória de um dos mais qualificados cineastas da atualidade.

"Cão Branco" - Um grito contra o preconceito

Já assistiu ou, ao menos, ouviu falar do filme Cão Branco (White Dog, 1982)? Não? Tudo bem, é perfeitamente compreensível afinal o mesmo mal foi lançado comercialmente nos cinemas norte-americanos (embora alguns anos depois tenha sido exibido no canal a cabo HBO) e no Brasil saiu diretamente em home video, na época do saudoso VHS – e, neste caso em particular, tornou-se um daqueles filmes relegados a segundo plano e destinados a acumular poeira nas prateleiras das vídeo locadoras.

Porém, como ocorre a tantas obras injustiçadas, com o passar dos anos essa jóia rara do cinema passou a repercutir um pouco mais e mantém-se atualíssima, uma vez que lida com um tema ainda caro e polêmico a todos nós, a intolerância racial. Dirigido por Samuel Fuller, um dos maiores realizadores que o Cinema já conheceu, o filme é uma investigação incisiva e contundente do racismo, sem contornos maniqueístas ou soluções fáceis.

O ponto de partida de Cão Branco é simples e objetivo. Julie (Kristy McNichol), uma aspirante a atriz, acaba por atropelar acidentalmente um cachorro pastor alemão de pelagem branca. Sentindo-se culpada, resolve abrigar e tratar o animal em sua casa e, aos poucos, vai desenvolvendo com ele uma relação afetuosa – a recíproca é totalmente verdadeira, ao ponto de ser salva de uma tentativa de estupro por seu novo amigo. Porém, aos poucos ela percebe um comportamento estranho por parte do cão, até descobrir que ele foi treinado por um racista para atacar apenas pessoas negras. Julie o leva até um canil, onde Keys (Paul Winfield), um adestrador, tentará reverter esse instinto agressivo. Keys possui uma motivação muito particular na empreitada porque ele mesmo é negro.

Na época, Samuel Fuller estava afastado há cerca de vinte anos de Hollywood, desiludido com o modus operandi dos grandes estúdios. Quando partiu para a gênese de Cão Branco confirmou sua fama de outsider , abordando um tema espinhoso e desagradável para, principalmente, a sociedade hipócrita norte-americana (claro que a carapuça certamente ajusta-se a muitos outros países – inclusive o nosso) e realizou uma obra personalíssima com um trabalho de câmera extremamente apurado, contando com super-closes, panorâmicas e tomadas ao nível do chão que pontuam a narrativa de forma soberba e até mesmo realçam o clima perturbador da película, assim como a trilha sonora minimalista de Ennio Morricone e seus marcantes acordes de piano.

Fuller aproveita até mesmo para se permitir um certo exercício de metalinguagem e sublimar seu desencanto com o cinema dos EUA – a personagem Julie é uma atriz iniciante batalhando por um lugar ao sol, mas só consegue oportunidades em filmes baratos. A metralhadora giratória do cineasta não perdoa nem George Lucas (um dos ícones do chamado cinema blockbuster): em dado momento um personagem brinca com dardos sobre um pôster do robô R2D2 (de Guerra nas Estrelas), afirmando que a tecnologia acabou com a essência do verdadeiro Cinema.

Quando Cão Branco foi finalizado e entregue à cúpula da Paramount, produtora do filme, muitas sobrancelhas levantaram-se espantadas com o conteúdo. A crítica não deu trégua e o qualificou como preconceituoso e racista, afirmações no mínimo imbecis e descabidas, já que o filme é, antes de qualquer coisa, um poderoso libelo anti-racista.

Outra curiosidade a respeito é que o roteiro, de autoria do então desconhecido Curtis Hanson (que dez anos depois assinaria a direção do excelente Los Angeles – Cidade Proibida), usou como ponto de partida um caso verídico ocorrido com a atriz Jean Seberg (estrela de Acossado, de Jean-Luc Goddard), que atropelou um cão treinado para atacar somente pessoas de cor.

Por tudo isso, Cão Branco merece ser visto e revisto, principalmente por ser um exercício de Cinema em sua acepção mais pura e por tratar de um assunto tão espinhoso de forma aberta e sem hipocrisia – qualidades, aliás, que andam em falta na atual cinematografia norte-americana.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Domingo de som, fúria e diversão





Uma tarde regada a muito hardcore, ska e surf music. Assim será o próximo domingo, 18 de setembro, a partir das 15:00 hrs no DCE da UFPR. O Coletivo Abre Aspas traz a Curitiba as bandas Chuva Negra (SP) e Nunca Inverno (SC), e os grupos locais Abraskadabra e Beer Buk Trio. Além das atrações musicais, haverá venda de material independente (discos, camisetas, etc), bebidas (com e sem álcool) e comida vegan.



O Beer Buk Trio aposta no som instrumental e surf rock, com os riffs e acordes tão característicos do gênero, na tradição de precursores como Dick Dale, Ventures e Surfaris e, buscando referências brazucas, Retrofoguetes e Dead Rocks.


Velho conhecido do público curitibano e vindo de Blumenau, o Nunca Inverno certamente vai colocar o circle pit para funcionar com seu hardcore energético e contará com inúmeras vozes dividindo o microfone com o vocalista Luis. As letras do grupo são convites não só ao agito, mas também à reflexão.


Unindo a malemolência jamaicana à energia punk, o Abraskadabra promete colocar todo mundo pra dançar com o seu skacore através de guitarras furiosas e uma impecável seção de metais. E tudo isso apoiado por oito anos de estrada e a segurança de quem já tocou com grandes nomes do gênero como Less Than Jake, Goldfinger e Reel Big Fish.


Como atração principal, os paulistanos do Chuva Negra chegam a CWB com seu hardcore melódico e altamente empolgante. Contando com ex-integrantes de bandas notórias do cenário brasileiro como Fullheart e Middlename, certamente fecharão o evento com chave de ouro.



Não fiquem aí parados(as) e atualizem suas agendas!




Serviço:
Show com as bandas

CHUVA NEGRA (SP)
ABRASKADABRA (CWB)
NUNCA INVERNO (SC)
BEER BUK TRIO (CWB)

Domingo, 18/09/11 a partir das 15:00 hs no DCE/UFPR – Rua General Carneiro, 390 – Curitiba/PR
Ingressos antecipados a R$ 10,00 na NAYP – Shopping Omar – Rua Vicente Machado, 285 – Loja CA 6)
Na hora do show, outro preço

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Para sair pogando de kilt ...

Curitiba, 7 de setembro chuvoso e frio... para esquentar o clima, nada com o street punk com inegáveis influências folk e celtas do Dropkick Murphys...

Ouçam bem alto!